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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ronda dos bairros com a velha estrutura?

O governo do Amazonas lançou esta semana o programa “Ronda dos Bairros”, baseado no programa que foi lançado em Salvador em 2008, que foi inspirado no homônimo lançado meses antes em Fortaleza (CE). O cidadão deverá ter o número do celular do policial que circulará por determinada área e, com isso, poderá ser atendido rapidamente. Na teoria, isso funcionaria perfeitamente. Mas vejamos algumas situações reais para ver se dará certo mesmo.

Em primeiro lugar presume-se que o serviço de telefonia celular, com os quais os policiais serão acionados, funcione perfeitamente, o que está muito longe da nossa realidade. Em alguns pontos da cidade, principalmente na periferia, é simplesmente impossível. Supõem-se ainda que o cidadão tenha crédito mas, se ele não tiver? Liga a cobrar? Corre para um orelhão, esse objeto obsoleto hoje em dia?

O Ronda será lançado inicialmente na zona Norte, o que compreende a Cidade Nova e os demais bairros limítrofes. São mais de 500 mil habitantes e, para cobrir essa quantidade de pessoas, seriam necessários mil policiais, levando em consideração a razão de 1 policial para cada 500 habitantes (a ONU considera o número ideal 1 para cada 250). Hoje a Polícia Militar do Amazonas conta com um efetivo de quatro mil homens e, até 2014, a previsão é ter 10 mil em todo o estado. Dados do comandante Almir David Barbosa. Dan Câmara, o anterior, dizia que o efetivo era de 7 mil.

Bem, para dar mobilidade a esse contingente seriam necessários pelo menos 250 viaturas, considerando-se quatro policiais por viatura. Isso sem contar que ainda tem combustível e manutenção, o que ensejaria mais pessoas para fazer essa manutenção. A estimativa é de que em agosto o Ronda esteja operando a pleno vapor. Bem, para isso deve ser lançado processo de licitação, que deve durar três meses, se tudo correr em conformidade.

Mas o fator mais preocupante decididamente não é este. Mas sim a qualidade dos policiais que atuarão no Ronda dos Bairros. Nos primeiros três meses de 2011, 215 policiais foram presos ou afastados por envolvimento em crimes de diversas naturezas: extorsão, tráfico, associação ao tráfico, assaltos e homicídios. O vídeo que circulou o mundo mostrando policiais atirando covardemente em um menor dá uma exata dimensão do quanto ainda é preciso avançarmos.

A Secretaria de Segurança anuncia que fará exames toxicológicos nos novos policiais, mas não pode fazer o mesmo com os que já entraram. A avaliação psicológica é feita a cada seis meses mas, com apenas três psicólogos, fica impossível fazer um bom acompanhamento de todo o efetivo.

Minha sugestão para a questão? Não tenha pressa em implantar um programa de grande monta como esse. É preciso fazer reciclagem no atual efetivo, expulsar os maus policiais, cortar na própria carne para que a população volte a confiar no policiamento. E que os R$ 200 milhões anunciados para a implantar o programa Ronda dos Bairros sejam bem aplicados!


quarta-feira, 23 de março de 2011

Essa é a segurança que prometeram?

Violência policial é um assunto que nunca me surpreendeu! Nem por isso eu deixo de me indignar com as ações as quais tomo conhecimento. Quando vi a reportagem na TV A Crítica e depois a versão online não pude deixar de lembrar, e expor, o que mais acontece na briosa Polícia Militar do Amazonas. E digo isso para proteger a história desta centenária instituição que não merece a parte suja que a integra hoje.

Lembro, por exemplo, o assassinato da estudante Ana Délia Albuquerque, em 1992, assaltada, estuprada e assassinada por um policial militar, fardado, que estava de férias. A exemplo do que foi feito no caso do estudante que hoje vive em programa de proteção à testemunha, o comando da PM também negou as acusações e defendeu os criminosos fardados. Menos mal que o estudante sobreviveu e pôde fazer a denúncia.

Não são poucos os números de policiais que são afastados ou sendo investigados por associação ao tráfico, extorsão, concussão, e outros motivos que levam à expulsão da corporação. Mas espera aí, essa e a palavra-chave, da qual deriva corporativismo, que é exatamente onde se baseia o argumento de legítima defesa apresentado pelo comando da PM.

Lembro bem quando do episódio da morte de Ana Délia, questionamos o comando da PM o que estava sendo feito, nos responderam que estavam sendo feitas diligências e tudo o que fosse possível, pois o caso estava tendo uma grande repercussão na imprensa. Eis aí um outro grande motivo de rápida averiguação: a pressão de familiares e amigos junto ao poder público através da imprensa. Mas será que sempre será assim, as coisas por aqui somente funcionam se houver exposição na mídia? Não dá para cumprir o seu dever?

Mas um episódio mais grave ocorreu naquele caso: a PM já estava com o autor do crime contra Ana Délia preso e estava relutante em apresentá-lo. Como a irmã de Ana Délia sobreviveu, identificou o autor, o ex-pm Afonso Araújo de Almeida, e havia pistas sobre o paradeiro dele, temia-se pela integridade física dele. Ora, na época estava em discussão a pena de morte e os amigos e familiares eram, e ainda são, contra. Portanto, essa argumentação é falsa. O mesmo argumento pode estar sendo usado agora mas, como antes, não deve se sustentar.

Lembro bem que o governador Omar Aziz disse, logo após ter sido reeleito, que cuidaria pessoalmente da segurança independente de quem fosse o secretário. Pois bem, ele fez o desafio a si mesmo e sei que não se resolve de uma hora para outra, até porque exige a realização de concursos, treinamento, melhor aparelhamento, inclusive do setor de inteligência e perícia. Mas espera aí, ele já está no governo, ainda que como vice e, por algum tempo como secretário de segurança, e as coisas não melhoraram. A desculpa de que era um outro governo nem pode ser usada aqui.

Foi anunciado pelo próprio Omar investimentos de R$ 200 milhões para a implantação do programa Ronda nos bairros, que foi o grande mote da campanha. Espero que seja realmente bem aplicado. Mas espero também que outras medidas sejam tomadas para que haja uma depuração do atual quadro da segurança pública do Amazonas. Eu já fui parado por policiais visivelmente drogados, já vi policiais recebendo propina, já vi policiais agredindo pessoas sem que nada elas tivessem feito e, se outras pessoas forem questionadas, poderão ter histórias parecidas ou diferentes, mas sempre haverá.
Que não sejam jogados para debaixo do tapete os casos de falta de investimentos como o que foi mostrado nesta terça-feira, 23.03, em que a "viatura" que faz o policiamento é um carro descaracerizado de 2002. Isso é o que é mostrado e contradiz o que divulga a propaganda oficial!

Conheço inúmeras pessoas que tem mais medo da polícia do que de bandidos, pois se forem assaltadas, é só aquilo de material que levam. Claro que existe ainda o trauma que fica. Mas é bem pior encontrar um policial mau intencionado, atrás do “do guaraná”, que pode forjar um flagrante e acabar com a vida de uma pessoa. Esse é o mau maior! E não é essa segurança que queremos, bem como cabe a pergunta: é essa a segurança que nos prometeram?

E para os que pensam que desejo um mau governo a Omar Aziz estão redondamente enganados. Muito ao contrário, desejo que ele faça um governo de avanços no combate à corrupção, sem superfaturamento em obras, que incentive a geração de emprego e renda, que fortaleça a economia do interior, entre tantas outras coisas. É isso!
Post scriptum: sempre converso com colegas da imprensa sobre fazer reportagens abordando o assunto e sempre ouço as mesmas alegações de que o veículo em que trabalha não fará porque tem comprometimento com o poder público ou, pior ainda, temem receber ameaças por parte de policiais.
P.S.2: Quero deixar bem claro que na corporação da briosa Polícia Militar do Amazonas a maioria é de bons policiais e estes, em respeito á farda que usam, deveriam ser os primeiros a pedir pela saída dos maus policiais que enxovalham e desonram a corporação.